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Entrevista a Manuel Heitor: “Temos hoje muitos estudantes do Ensino Superior que são na família, a primeira geração a estudar”

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É impossível iniciar qualquer entrevista com um Ministro sem falar da situação pandémica que estamos a passar. No contexto de pandemia que atravessamos, como considera que tem sido a reação do Ensino Superior e da Ciência?

Tem sido muito adequada e responsável, em Portugal e na Europa, adaptando novas formas de ensino aprendizagem. Uma adaptação muito rápida, muito mais rápida do que a do ensino à distância, mas também, sempre que possível, abrindo o laboratório e garantindo a presença, com uma precaução muito ativa de estudantes e investigadores. Também na área científica e na área da capacitação tecnológica, os laboratórios científicos e instituições mobilizaram-se em torno de projetos de investigação, para se focarem no combate à deteção precoce e desenvolvimento de variados equipamentos, testes e diagnósticos, bem como, a mobilização de muitos laboratórios para poderem fazer testes. Portanto, acho que houve (e é bem claro nos números) uma mobilização muito grande, quer em quer em termos de ensino adaptado àquilo que são as regras impostas pelas autoridades de saúde quer mobilizando a capacidade científica e as infraestruturas instaladas para poder responder a uma crise pandémica e social, que estamos a viver.

 

Começam a existir algumas vozes que consideram que o ensino, no seu geral, é menos exigente nesta fase da pandemia. Considera que este fenómeno irá afastar estudantes do Ensino Superior no próximo ano letivo?

É um esforço aprender mais e será um esforço maior porque, sobretudo, já atingimos metade dos jovens com 20 anos a participar no Ensino Superior e, por isso, impusemos uma meta para 2030. Pretendemos que 6 em cada 10 jovens, com 20 anos de idade, faça parte do Ensino Superior. Este é um desafio enorme para a sociedade portuguesa uma vez que temos hoje muitos estudantes do Ensino Superior que são na sua família, a primeira geração a estudar. a primeira geração a estudar. Esse é um esforço que queremos continuar a fazer. Também já atingimos a meta de ter 40% da população, entre 30 e 34 anos, com grau de Ensino Superior, e posso dizer que foi um percurso complexo e moroso, mas que nos deu energia para continuar a formar pessoas.A pandemia trouxe, por um lado, uma nova realidade de utilização de sistemas digitais de ensino-aprendizagem, mas sabemos que também trouxe um afastamento das pessoas, derivado da situação pandémica. O que levou, obviamente, a obstáculos no sistema de ensino-aprendizagem. Estamos, portanto, a viver um ano único, no que refere à capacidade de atração do Ensino Superior por parte dos mais jovens. Uma vez que, têm existido muitos jovens interessados no Ensino Superior, é preciso garantir que continuam a estudar. Tem de haver um esforço grande por parte dos estudantes, bem como das instituições e professores mas que vale a pena e, portanto, deve ser continuado.

 

Como vê a implementação das novas ferramentas de ensino-aprendizagem que as instituições de Ensino Superior estão a usar desde o início desta situação (conjugação entre o ensino à distância e presencial)?

Acha que se deverão manter no futuro?Acho que sim, de forma gradual e, sobretudo, há muitas vantagens na adoção dos sistemas digitais em algum tipo de matérias e aulas, mas também sabemos que há muitas desvantagens. Por isso, de facto, o avanço foi tão bom, deve-se manter e reforçar os aspetos bons do ensino à distância e a capacidade de teletrabalho. Isso são aspetos positivos que a pandemia veio forçar e acelerar e que devem ser mantidos. Contudo, em nada substitui o ensino presencial, sobretudo, a interação entre as pessoas, os jovens, os mestres e os jovens entre eles, bem como, o trabalho em equipa. E, por isso, é necessário encontrar soluções híbridas, em que muitas das atividades que possam ser à distância, o sejam, mas reforçando cada vez mais o trabalho em equipa e certamente o contacto pessoal diário entre os estudantes e com os docentes.

 

Passando agora para alguns temas mais gerais: várias vezes tem afirmado que é essencial aumentar-se o PIB investido em Investigação & Desenvolvimento para 3% até 2030 com 1/3 de investimento público. Porque é que é tão importante esta meta e o que significa atingirmos essa meta?

Já temos perseguido esta meta há mais de 20 anos. E a verdade é que ano após ano, a pandemia veio reforçar a ideia que temos de saber mais, temos de criar uma sociedade mais resiliente. Certamente, com as vantagens da transição digital mas cada vez mais uma sociedade virada para o novo conhecimento. Hoje, não temos o conhecimento necessário e muitas vezes as condições de colaboração institucionais necessárias. Por isso temos de nos esforçar mais, investir mais no conhecimento e, sobretudo, formar mais pessoas.Um esforço em investigação é sobretudo isso, um esforço do conhecimento que deve ser repartido entre setor público e privado.Portugal fez um grande percurso, porque há 30 anos atrás investíamos menos de 0,5% do PIB em investigação e, hoje, os consumos estimados para 2020 mostram um investimento de 1,56% do PIB e nos últimos 5 anos fomos crescendo muito bem. A despesa global em investigação aumentou quase 30% desde 2015 e ainda a participação do setor privado que hoje já é superior ao do setor público.Contudo, sabemos que é preciso continuar a criar mais e melhores empregos e, sobretudo, investir no conhecimento no setor privado, que quer dizer, criar mais empregos. Por isso, chegar a 2030 com 3% do PIB investido na investigação implica, sobretudo, um esforço das empresas por parte do setor pivado e criar postos de trabalho em Portugal na próxima década.Claro que é um esforço muito grande, um esforço coletivo, mas vamos agora enfrentar um período que é uma oportunidade importante, que é o chamado Programa de Recuperação e Resiliência de toda a Europa. É uma oportunidade para podermos alavancar, em Portugal, a formação de mais jovens, de mais adultos e a criação de mais e melhores empregos, que sabemos que só aparecem com investigação e desenvolvimento.Ou seja, investir mais em I&D, significa criar mais e melhores empregos.

 

Essa meta não é só de investimento público e necessita de um aumento muito grande do investimento privado em I&D. Como espera alavancar o investimento privado?

Tem de ser feito, sobretudo, com mais pessoas formadas. Por isso, o aumento do alargamento da base social do Ensino Superior tem sido muito importante nestes anos para termos mais pessoas, para criar melhores empregos associados à evolução daquilo que é a estrutura da nossa economia. Atuando cada vez mais em setores que produzem sistemas e produtos de maior valor acrescentado, por exemplo, olhando para as exportações, continuando a existir o desenvolvimento de produtos que são exportados com maior valor acrescentado. Hoje, já temos uma balança tecnológica positiva, nós exportamos mais do que importamos e este é um percurso para evoluir, que passe cada vez mais em desenvolver produtos mais completos, em áreas de maior complexidade, por exemplo, na área aeroespacial. Mas os últimos anos mostram bem que conseguimos aumentar bastante a despesa privada, sobretudo criando mais e melhores empregos em todos os setores, desde o setor metalomecânico, ao setor digital, ao setor agroalimentar. Tem muito a ver com o perfil do tipo de produtos e sistemas que são feitos das nossas empresas.

 

Na prática, estamos a falar de investimento em infraestruturas ou no aumento na contratação de investigadores?

É um mix, a ciência precisa certamente de estruturas humanas e materiais, desde equipamentos, mas sobretudo pessoas, precisa de instituições (quer empresas, quer instituições políticas) e precisa de um quadro de incentivos adequados. Estes são os 3 mixs: as infraestruturas humanas e materiais, as instituições e os incentivos; e estes complexos instrumentos são usados para desenvolver uma economia mais sofisticada, terão sempre na base as pessoas e a formação das pessoas. Assim como, a atração e a retenção de pessoas com competências e capacidades para criar emprego.

 

Então este aumento pode mudar o paradigma das relações entre o Ensino Superior e Ciência e o mercado empresarial, correto?

Sim, hoje já temos um paradigma de grande colaboração, quer com o Ensino Superior, quer com o Ensino Secundário, quer com a administração pública ou as empresas, portanto o mercado de trabalho privado. Há outros casos de sucesso, ao que chamamos arranjos colaborativos, que são laboratórios feitos em colaboração entre as instituições académicas e científicas e as empresas das mais variadas áreas, na área agroalimentar, na área da saúde, na área da automação ou transição digital, na área do espaço, área naval. Portanto, para além das cooperações, há também arranjos institucionais que demonstram o tipo de colaborações que hoje se vão consolidando entre as instituições científicas/académicas. Esta colaboração não pode ser restrita ao contexto regional, nem sequer nacional e, por isso, o estado do Ensino Superior tem muito a ver com a criação de redes secundárias. Portugal tem tido um percurso importante também na afirmação das suas empresas e programas europeus, mas é um percurso que queremos que duplique no próximo período de 7 anos, em 2021, face ao período anterior 2014-2020. Esse só passa sobretudo pela colaboração das empresas portuguesas com empresas secundárias e instituições cientificas de toda a Europa. Esta colaboração é particularmente decisiva para que Portugal tenha melhor qualidade de vida, mais e melhores empregos e, portanto, mais riqueza.

 

Não teme que comece a existir uma perceção pública que direcione os futuros estudantes para áreas mais tecnológicas/industriais, descurando áreas de ensino das humanidades?

Não, porque Portugal tem uma repartição de áreas muito equilibrada. Cerca de 30% dos nossos jovens estão em áreas técnicas ou tecnológicas, o que até é bastante superior à média europeia e é bom haver esta diversidade. Temos ainda uma participação grande nas chamadas ciências sociais e humanidades, assim como, nas artes e acho que se deve orgulhar desta repartição bastante equilibrada entre as diferentes áreas do conhecimento, sabendo hoje que é preciso ter jovens das áreas técnicas e tecnológicas, pois são áreas com grande potencial de criação de emprego.Esta partilha que a sociedade faz de uma forma adequada, conjugada, dá-nos uma liberdade de escolha, mas também de evolução ao longo da carreira. Esta mobilidade entre áreas é cada vez mais uma realidade hoje, ao longo da vida de qualquer um de nós.

 

Falando agora do Ensino Superior, nos últimos anos tem-se assistido a uma maior democratização do acesso ao Ensino Superior com a implementação de várias medidas, sendo a mais emblemática a redução do valor da propina da Licenciatura. Acha que o caminho nos próximos anos deve seguir a mesma lógica ou os esforços devem incidir numa melhoria das condições dos estudantes e na redução das suas despesas?

Não há dúvida nenhuma que houve uma grande democratização do Ensino Superior! Em 2020, atingimos mais de 50% na faixa etária dos 20 anos a participar no Ensino Superior, enquanto que eram 40% em 2015 e também atingimos no final do ano passado, mais de 40% da população entre entre os 30 e os 34 anos com um curso superior, quando eram 36% em 2015. Não há duvida nenhuma que, quer no acesso, quer na conclusão, se evoluiu muito nos últimos anos. A principal medida foi, sobretudo, a valorização social do ensino politécnico e, em particular, o reforço e uma abertura considerável daquilo que são as formações curtas de Ensino Superior, os cursos tecnológicos e profissionais que hoje recebem por ano cerca de 11 mil novos estudantes e, certamente, outras medidas importantes, como a redução de propinas e o gradual investimento que estamos a fazer e tem de ser reforçado.Portanto, o caminho da democratização do acesso ao Ensino Superior passa por um conjunto diverso de instrumentos associativos como: reforçar e melhorar as infraestruturas académicas, assim como o apoio para os estudantes, as condições de alojamento e de mobilidade na Europa. É importante atrair estudantes estrangeiros e dar a possibilidade de os portugueses irem para o estrangeiro e, sobretudo, cada vez mais, facilitar a interligação entre a educação, a investigação e a inovação, para criar melhores condições de empregabilidade. Esta relação entre o acesso ao Ensino Superior e a empregabilidade, sempre foi e será cada vez mais decisiva para aumentar a qualidade de vida das famílias portuguesas.

 

Um dos maiores problemas detetado é a questão do alojamento estudantil, principalmente nos grandes centros urbanos. Como vê a situação e como pretende o Governo resolver este problema?

Desde 2018 foi lançado o Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior, que teve como ponto de partida a disponibilização de edifícios públicos, edifícios que estavam abandonados, que foram reconvertidos e disponibilizados para serem criadas residências. Naturalmente que muitos deles estão ainda por terminar, ou estão em obras, ou ainda não começaram as obras. Temos aumentado, pelo menos, 500 camas por ano, mas é pouco. Temos atualmente cerca de 13.000 camas disponíveis para um total de 50.000 estudantes deslocados, o que mostra que é preciso investir mais no alojamento. A pandemia veio facilitar esse processo, devido à disponibilidade de alojamento local, que tem sido usado nos últimos anos. Este não é um problema de hoje, nem deste ano, nem eventualmente do próximo, mas está parcialmente resolvido em associação com a pandemia, mas voltará quando a situação da pandemia estiver totalmente eliminada. E, por isso mesmo, no quadro do Plano de Recuperação e Resiliência está a ser preparado um programa com cerca de 400 milhões de euros para apoiar a construção de residências e aumentar o número de camas em Portugal. Um programa que será aberto a associações públicas e privadas, instituições do Ensino Superior e outras, como autarquias, para apoiarem o investimento da construção de residências em todo o território, nomeadamente, nas zonas onde há mais falta, como os principais centros urbanos.

 

Em ano de pandemia o Governo assinou protocolos com o alojamento local e hotéis para tentar resolver o problema. Como será a resposta no próximo ano letivo?

No próximo ano letivo muitas dessas situações irão continuar, posso dizer que este ano não temos as residências cheias, estamos com cerca de 85% de ocupação, portanto ainda há lugares disponíveis nas residências públicas e há uma oferta muito grande de alojamento local e até de outras instituições, como Pousadas da Juventude. Portanto, julgo que para o próximo ano letivo essa situação estará parcialmente resolvida. No entanto, como disse, no futuro temos que continuar a investir e, por isso, estamos a lançar um programa claro para reforçar a construção de residências universitárias em Portugal.

 

Outra questão que tem estado na ordem do dia é a problemática da Saúde Mental dos estudantes do Ensino Superior (e da sociedade em geral). Está previsto algum programa de proximidade no Ensino Superior?

Já foi lançado desde meados de 2020, até começou com um projeto da Universidade de Coimbra, aquele a que chamamos o “Transforma Portugal”, em articulação com a Direção-Geral do Ensino Superior, mas também com o governo que tem uma função de microfinanciamento a projetos de estudantes ou então também a ligação dos estudantes às partes mais deploráveis da nossa sociedade, nomeadamente para apoio a idosos. Este é um exemplo de que naturalmente o Ensino Superior se distingue pelas suas características, e que muitas das instituições têm os seus próprios programas, estilos e instrumentos para detetar eventuais problemas. Agora há uma coisa que tem de ficar certa, todas as análises mostram que esta não é uma questão típica ou específica dos estudantes de Ensino Superior. A pandemia, de facto, veio quebrar um conjunto de relações sociais entre as pessoas e, portanto, perturba e cria perturbações no nosso dia-a-dia, bem como nos estudantes do Ensino Superior em reflexo do isolamento relativo entre as pessoas. Não acredito e nunca vi nenhuma análise que mostrasse que os estudantes são mais sensíveis do que as outras pessoas, mas de facto isso afeta todos e, por isso, temos alertado associações de estudantes e instituições quer para este programa “Transforma Portugal”, que é uma ajuda à seguridade entre os estudantes, mas também a auxílios de emergência que continuam a existir através do fundo de ação social.

 

Estamos quase a terminar, mas não podíamos deixar de levantar uma última questão relacionada com as atividades extracurriculares. Sabemos que estamos numa fase de imprevisibilidade, mas qual é a importância que outras atividades extracurriculares têm no percurso académico de um estudante e como podem essas atividades diferenciar o seu currículo para o futuro?

Sabemos que são imprescindíveis! O período de tempo no Ensino Superior é um período único na vida de todas as pessoas, sobretudo associado a novos conhecimentos, novas amizades, novas interações e permite aos estudantes poderem fazer um leque diversificado de atividades: do desporto, à cultura, às artes, à ciência. Isto hoje faz parte do Ensino Superior e é uma característica que tem impactos principalmente positivos ao nível da criação de competência individuais, sociais, atitudes e comportamentos, incluindo, tipos de cidadania que passam muito por esta perceção de adquirir outro tipo de competências para além daquelas que se obtém dentro da sala de aula, que podem ser obtidas através de atividades com componente social, que fazem parte cada vez mais da rotina de qualquer estudante de Ensino Superior.

 

Quais são as expetativas que tem para o próximo ano letivo?

Primeiro, que o ensino seja presencial, que voltemos a uma atividade de rotina e que seja sempre melhor. Se aprendemos muito com a pandemia? Certamente que temos algum grau de incerteza, mas também sabemos hoje adotar novos sistemas e, por isso, também seria importante voltar ao ensino presencial com uma integração de ferramentas híbridas de ensino-aprendizagem e ter uma auto-aprendizagem, mas antes de qualquer outra coisa, aprender mais e melhor, recuperando os tempos perdidos da pandemia e as dificuldades que todos tiveram em aprender. Portanto, trata-se de um período de recuperação e resiliência particularmente importante para todos e, certamente, para Portugal.

 

Que mensagem pode deixar o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior aos jovens em vias de ingressar no Ensino Superior?

Aproveitem mais e cada vez melhor, estudem, mas também sigam as vossas opções, fazendo aquilo que verdadeiramente consideram ser o melhor para o futuro de cada um!

 

 

 

 

 

 

 

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