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ADN Escolas

ADN da tua escola | Entrevista ao Diretor da Escola Secundária de S. João do Estoril

Rita Costa

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Imagens cedidas pelo entrevistado

Este ano letivo é, sem dúvida, um dos mais desafiantes dos últimos anos. Todo o funcionamento de uma instituição escolar teve de ser repensado, incluindo aulas, espaços comuns, intervalos e refeições, em virtude da promoção da saúde de toda a comunidade escolar e, da saúde de todos.

Para minimizar a probabilidade de contágio da Covid-19, é imperativa a adoção de medidas de prevenção, que passam pelo reforço da higiene pessoal, a utilização de equipamentos de proteção individual, higiene ambiental e distanciamento social.

Às escolas foi exigido no início deste ano letivo, em virtude das circunstâncias, a adoção de todas estas medidas preventivas. Contudo, sabendo que a Covid-19 não é circunscrita às escolas, é importante relembrar que, as medidas devem ser aplicadas a todas as áreas e espetros da vida da comunidade, sob pena de colocar em causa todos os esforços feitos pelas instituições.

Os jovens, fruto das características da sua faixa etária, podem não ser respeitadores e cumpridores das medidas adotadas pelas escolas e, deste modo, poderão colocar em causa a segurança no interior e exterior da sua instituição de ensino.

A Mais Educativa entrevistou o Diretor da Escola Secundária de S. João do Estoril, Fernando Ramos neste invulgar e desafiante ano letivo, para perceber de que forma estão a ser vividos e geridos estes novos desafios educativos, pedagógicos e sociais, resultado da pandemia Covid-19.

Neste sentido, quais são os esforços humanos da escola para cumprir e fazer cumprir as regras adotadas neste ano letivo?

Dentro da escola são feitos todos os esforços e são seguidas todas as orientações da Direção Geral de Saúde (DGS). Mas, claro que muitas das medidas que adotamos, não são bem compreendidas e interiorizadas pelos pais e encarregados de educação. Nós temos de lhes explicar como e o porquê de estamos a tomar determinadas medidas de prevenção, por exemplo: Porque não se utilizam os micro-ondas? Porque é que os alunos não têm cacifos? Porque é que não permitem isto ou aquilo? E nós temos de lhes explicar novamente, a probabilidade de haver maior propagação do vírus nestes espaços, uma vez que os alunos partilham cacifos, micro-ondas, porque não têm os devidos cuidados, e nós não temos recursos humanos que nos permitam controlar a cada minuto, cada atuação de cada aluno, é impossível!

A questão aqui é: mitigar o risco, é a palavra de ordem. E para tal, temos de tomar medidas que, na perspetiva dos pais, não são tão agradáveis, mas tem de ser feito e nós não inventamos nada, vamos também aprendendo com a experiência e melhorar. As medidas de contingência lançadas pelo governo não são estanques, são planos que têm de estar sempre em aberto e, vão até surgindo novas medidas. Quando alguma coisa não está a correr de feição, analisamos o que há a fazer para melhorar, mas sempre ao encontro das medidas da DGS.

Quais são as diferenças que podemos observar atualmente numa sala de aula relativamente ao ano letivo anterior?

No ano letivo anterior, já houve uma parte substancial, em que tínhamos de conviver com a pandemia, nomeadamente aquando do regresso dos alunos do 11º e 12º anos sujeitos a exame nacional, ou seja, muitas medidas de contingência já tinham sido aplicadas. Mas, efetivamente, no início deste ano letivo, todas as medidas de contingência previstas pelo governo foram aplicadas, portanto, atualmente as diferenças são todas. Começa pela utilização das máscaras; o distanciamento, que nem sempre é cumprido pelos alunos, mas que acaba por ser visível; a circulação na própria escola, toda a circulação no interior, exterior da escola é totalmente diferente e, condicionada neste momento; a dinâmica pedagógica em sala de aula, determinado tipo de trabalhos experimentais e de grupo estão agora muito condicionados, em função das regras de contingência, portanto na prática, as diferenças são totais. Temos ainda as salas de contingência, damos sistemáticas orientações às pessoas, passamos circulares aos alunos, a forma como comunicamos com os agentes da comunidade, pais, Associações de Pais… Este ano estamos a fazer uma coisa que nunca antes tinha sido feito, criámos um canal aberto de comunicação quase permanente com as associações de pais, que criaram um grupo do WhatsApp para colocarem questões ao diretor e, eu vou respondendo. Temos ainda, encontros de x em x tempo online, para responder às questões e anseios e, também para esbater certos rumores e boatos que surgem, porque não há nada pior do que não dar respostas, gera desinformação.

Relativamente, aos professores quais são as medidas que devem cumprir no exercício da docência? E no contacto entre colegas de profissão?

Em relação aos professores, diria que são verdadeiros heróis! Aliás, todas as pessoas que trabalham nas escolas são verdadeiros heróis. Temos muitos professores enquadrados em grupos de risco, mas é em momentos de crise que se revelam os grandes espíritos e, temos aqui pessoas que, por amor à profissão e, falo de pessoal docente e não docente, que com este sentido de missão, todos os dias arriscam a sua vida para estarem aqui com os jovens e exercerem a sua profissão. Cumprem com os procedimentos, tentam na medida do possível, manter o distanciamento com os alunos, e muitas vezes, indo de encontro às suas práticas.

O verdadeiro professor gosta do contacto com o aluno, não gosta de estar longe, gosta de ir à mesa, ajudar, mas esta proximidade teve de se esbater. Nomeadamente porque têm surgido contágios entre os alunos. Já nos foi perguntado se o professor teve um contacto de elevado risco e, na generalidade dos casos, isso não acontece, os professores cumprem esse distanciamento exigido, contrariando a sua natureza. É como começar a andar, têm de se formatar de uma forma totalmente diferente, e se há profissão em que é necessário haver espírito de adaptação, é a dos professores, são autênticos camaleões, heróis e camaleões, adaptam-se a tudo e não lhes é reconhecida a devida importância. Contudo, agora começa-se a reconhecer um pouco, devido a esta circunstância. Mas já vem um pouco tarde, porque já temos inúmeros profissionais que não quiseram seguir a profissão de professor, devido a toda a imagem criada.

Sabemos que os trabalhos de grupo são parte integrante dos métodos de avaliação dos alunos. Este ano devido à necessidade de cumprir o distanciamento social, continuam a realizar-se este tipo de trabalhos? Qual é a alteração?

Os alunos continuam a realizar trabalhos de grupo, com o cumprimento das normas exigidas e necessárias, mas continuam a realizar-se. Exige-se, por exemplo, serem sempre os mesmos grupos, para evitar estarem-se a misturar com outros alunos. Todas as atividades extracurriculares, visitas de estudo, projetos com outras turmas, agora não podem ser feitos, mas as atividades online continuam a decorrer, na medida do possível. É raro um diretor de um agrupamento dar aulas, mas este ano optei por fazê-lo, porque acho importante estar no terreno para perceber como é que as coisas estão a acontecer, sentir a evolução da situação, aumentar a minha sensibilidade, de forma a conseguir agir em conformidade e de forma mais assertiva.

Nas aulas de Educação Física nas quais existe um maior contacto entre os estudantes, quais são as medidas adotadas para prevenção do contágio?

A legislação permite que tanto alunos como professores, em certas circunstâncias não necessitem de utilizar máscaras nas aulas de Educação Física, contudo, quando os professores precisam de auxiliar os alunos em certos exercícios, estão mais expostos, porque nesses momentos os alunos estão sem máscara. Os desportos coletivos com maior contacto entre os alunos, não são recomendáveis, privilegia-se agora os desportos individuais ou, com um contacto reduzido entre os alunos e, portanto, toda a dinâmica das aulas teve de ser alterada.

Relativamente aos tempos de intervalo, como decorrem atualmente? A organização e distribuição dos alunos pelos espaços comuns foi alterada?

Sim. Houve agrupamentos que preferiram fazer dois turnos de aulas, um de manhã e outro à tarde, mas para a nossa escola não era viável. A nossa escola tem muitos alunos, tem mais do que o dobro da segunda escola secundária do concelho. Essa solução implicava, para a nossa realidade, a criação de 6 blocos de aulas e, isso para nós é inconcebível. Os alunos terem máscara 6 blocos de aulas consecutivos, com intervalos muito reduzidos era impraticável. Portanto, nós optámos por manter os horários mistos, com algumas nuances nos 12.º anos, que estavam habituados a terem apenas aulas de manhã e, agora algumas turmas têm de ter aulas também à tarde. E, ainda, como medida central é haver uma destrinça entre os horários dos alunos, duas grelhas de horários, dois grupos de turmas com horários desfasados, a mesma situação acontece com os intervalos e, com o período das refeições. Significa que só metade da escola se encontra ao mesmo tempo e assim, não se cruzam em nenhum momento, mas implica uma logística muito desafiante e complexa, que teve de ser preparada com muita antecedência.

Ao caminhar pela escola, reparei que o bar se encontra encerrado. Foi encerrado este ano letivo devido à Covid-19?

Não, o bar encontra-se encerrado por outro motivo: a falta de recursos humanos. Tivemos de tomar decisões, e priorizar serviços, como o ginásio da escola. Neste momento, temos as funcionárias do bar a fazer serviço no ginásio, demos prioridade às aulas e aos aspetos didáticos. O bar ainda esteve aberto no início do ano letivo, mas não foi possível mantê-lo. A Câmara está a fazer um grande esforço para colocar pessoal não docente nas escolas, mas neste momento, temos muitas ausências, nomeadamente devido a baixas médicas e funcionárias enquadradas em grupos de risco que atualmente não se encontram a trabalhar.

Portanto, até este momento ainda não conseguiram ter um reforço do pessoal não docente…

Tocou num ponto muito importante: o número de funcionários que a escola tem de ter obedece a um rácio, estabelecido por lei. Só que, nas circunstâncias atuais mesmo que tivéssemos esse rácio, não seria suficiente, porque é preciso um reforço de recursos humanos em todos os setores, para garantir a segurança de toda a comunidade. Por exemplo, no ginásio é preciso uma senhora nos balneários femininos e um senhor nos masculinos, enquanto um terceiro elemento tem de garantir a higienização de todos os equipamentos antes do começo de cada nova aula, ou seja, precisamos, pelo menos, de mais uma pessoa, onde temos recursos para isso?

Neste momento já temos duas pessoas no pavilhão, quando antes precisávamos apenas de uma pessoa, porque agora, entre as mudanças de salas é preciso higienizar o espaço. A prioridade é a saúde e isso requer uma higienização constante dos espaços. Se o rácio já não colmatava as nossas necessidades, agora com menos 7 ou 8 funcionárias, muito menos, portanto precisamos de fechar setores, como é o caso do bar.

Os pais e encarregados de educação são também uma parte importante na comunidade escolar, e a sua envolvência no meio escolar é benéfica para todos, contudo a ausência de cuidados preventivos, pode colocar em causa todos os esforços da escola. De que forma lhes foram transmitidos as novas medidas e planos de contingência da escola?

O plano de contingência foi dado a conhecer aos pais, tão cedo quanto foi possível. E havendo esta grande aproximação às Associações de Pais, eles foram informados, em tempo que eu considero útil, de todas as medidas de contingência que a escola estava a adotar. Gostaria até de ter avisado com mais antecedência, mas as orientações da própria DGS foram surgindo a conta-gotas. Nós optámos por fazer um plano de contingência prévio, que já fosse de encontro às medidas necessárias para garantir a segurança de toda a comunidade. Contudo, não sendo este um documento estanque, é necessário estar constantemente informado, para ajustar as medidas adotadas pela escola. Por vezes, são até os pais, através daquele canal que mencionei há pouco, que nos sugerem novas medidas para adotarmos na escola e nós, claro acrescentamos e vamos atualizando. Há sempre canais abertos para as pessoas se mobilizarem, se envolverem, darem sugestões para o funcionamento da escola e para a melhoria do serviço. Temos inclusive no nosso site, uma atualização constante dos casos de Covid-19 na nossa escola, para prevenir a desinformação e os rumores.

Os próprios meios de comunicação social, muitas vezes, contribuem para esta desinformação, estão sempre a contactar-nos a pedir novas informações, mas relatam apenas a sua perspetiva, um lado da história, o que frequentemente origina mal-entendidos da parte da opinião pública. A comunicação com o exterior é muito importante, mas é preciso que a informação seja concisa, objetiva e indiscutivelmente, verdadeira. Por isso, optámos por, através dos nossos canais, informar a quem de direito e esses são sem dúvida, os pais, encarregados de educação, famílias, alunos, e claro a nossa comunidade educativa.

Na vossa escola, conseguem sentir uma diferença comportamental dos estudantes neste ano letivo face ao anterior? E relativamente aos pais?

Este ano anormalmente, andam muito tranquilos dentro da escola, não sei se por influência do uso da máscara… Verificamos poucas ocorrências disciplinares, possivelmente porque não circulam pelo interior da escola, a circulação faz-se agora, maioritariamente pelo exterior. A escola para quem deambula nela neste cenário, é uma tranquilidade anómala, o frenesim típico de uma escola e, particularmente nesta faixa etária dos 15 aos 19 anos, o ensino secundário, já não existe.

O que mais me entristece é o comportamento que adotam à saída do portão… Muitas vezes, dou-lhes o “sermão” ao meu jeito, tal como fazem os outros professores, para tentar sensibilizá-los para adotarem e manterem comportamentos preventivos e, eles estão muito atentos. Tento chamá-los à atenção, chocá-los, até porque a minha formação é na área da comunicação e, sei que a melhor forma de chamar à atenção do público, é provocando o choque, mas não há nada mais difícil do que mudar mentalidades. Quando estou a falar com eles, parecem verdadeiramente atentos e interessados, mas mal passam pela porta, já estão a tirar a máscara, e a esquecer o distanciamento social… Não serve de nada todo o meu discurso! Ou seja, ou o problema é meu e dos professores, e da forma como comunicamos, ou há uma barreira muito grande a impedir que a nossa mensagem chegue até eles.

Os pais estão sempre muito preocupados, preocupam-se muito com o que a escola está a fazer para proteger os seus filhos, e nós respondemos. Mas, depois vemos os comportamentos de risco das crianças, a falta de educação para a saúde que se reflete nas suas ações e, concluímos que não existe, na mesma medida a preocupação da parte dos pais, relativamente ao que as crianças fazem para se protegerem, a si e, às suas famílias e amigos. Quando os pais vêm buscar os filhos à porta da escola, no exterior está à vista a ausência de cuidados, e de responsabilidade, face à sua proteção individual. Parece haver uma conivência relativamente às ações das crianças. É preciso passar-lhes valores que os movam para ter atitudes responsáveis e, pensarem também nas pessoas que os rodeiam, uma vez que os seus comportamentos podem ter repercussões na saúde e segurança de todos. Esta é uma doença que causa um enorme constrangimento na sua vida pessoal, e claro, afetar gravemente a saúde dos seus familiares, as pessoas podem efetivamente perder a vida para esta doença.

Não quero generalizar, até porque se vêm jovens preocupados e com uma atitude responsável, mas o que assusta é que, na maior parte das situações, observa-se essa displicência. É preciso trabalhar de forma articulada com as famílias, para que a preocupação que os pais sentem relativamente à segurança nas escolas, se reflita nas atitudes dos jovens, porque neste momento, a escola é um dos sítios mais seguros da sociedade para as crianças estarem, porque há um tremendo rigor no cumprimento das medidas.

Por último, que mensagem gostaria de deixar aos pais, professores e alunos neste ano letivo tão atípico?

A mensagem vem na sequência de tudo o que disse anteriormente. É preciso que os alunos sejam mais responsáveis, que percam a perceção de que são imortais, eles também ficam doentes, podem ter complicações, podem infetar os seus familiares, e ainda são desconhecidas as complicações futuras. Por isso, devem pensar mais nos outros, nos seus familiares e amigos e ainda, devem ter mais consideração pelo esforço que a escola, pessoal docente e não docente faz para garantir a sua segurança e que sejam felizes, e também para que a escola continue a cumprir com a sua função de educar. Por último, era muito importante que os pais colaborassem com a escola neste sentido, de forma a educar os jovens para um maior sentido de responsabilidade humana e social.

Para terminar, a Mais Educativa falou com alguns alunos para ouvir a sua perspetiva das medidas de prevenção adotadas pela escola e, de que forma os estudantes vivenciam estas mudanças educativas e sociais. Os alunos entrevistados demonstraram entender e compreender a necessidade da adoção destas novas medidas, contudo realçam a necessidade de os estudantes compreenderem e respeitarem o esforço da escola em fazer cumprir as medidas: “Sabemos que a escola faz um esforço para evitar os contactos entre nós, mas chegamos aqui fora (exterior da escola) e vemos os jovens como nós, todos juntos sem máscara como se não houvesse a Covid.” Perguntámos o que pensam que a escola poderia fazer diferente para que os jovens cumprissem as regras, e o aluno rapidamente admitiu: “Penso que não há nada de diferente que a escola pudesse fazer… A escola já está totalmente diferente, adotaram todas as medidas possíveis, o problema está nos jovens que não se preocupam, nem estão consciencializados para este problema, e não sei como poderão vir a estar sem viverem eles próprios esta doença na primeira pessoa.” concluí o aluno do 12º ano.

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