Entrevista | Aurora Pinto: A jovem promessa
O fascínio pelo caminho artístico desabrochou de uma inevitabilidade antiga, que ganhou palco em “cães e gatos”, marcando o ponto de viragem para uma carreira a solo, após a integração n’Os LUA.
Transmitindo uma maturidade inigualável, Aurora Pinto revela [agora] uma presença por inteiro, baseada na entrega emocional absoluta e no olhar crítico sobre o mundo, que desafia as convenções do pop.
A estreia no The Voice Kids, sob a mentoria de Marisa Liz, conduziu à conquista do segundo lugar. A validação pública demonstrou uma identidade eclética, que recusa rótulos?
Sem dúvida.
A minha missão interna foi, sempre, mostrar versatilidade, uma vez que, como se pode perceber pela quantidade de sonoridades exploradas, não consigo [nem quero] “prender-me” a uma só prateleira.
As minhas provas no programa foram o primeiro exemplo público disso. Tive a sorte imensa de ter pessoas a apoiarem-me, e que compactuaram com esta minha “loucura” de querer ser tudo ao mesmo tempo.
Para mim, a música é um horizonte aberto e não uma linha reta.
Declarando que “a letra deve guiar a canção”, a composição para ÁTOA, Júlia Machado, Sandra Valero, Archie e Vizinhos prova que a capacidade narrativa assina uma ferramenta camaleão?
A capacidade narrativa é a derradeira ferramenta camaleão. Existe algo quase mágico em entrar nas perspetivas de outros artistas, noutras “personagens“… É como fazer uma viagem clandestina à vida de outra pessoa e à sua forma única de ver o mundo. Confesso que é o meu tipo de viagem favorito.
No fundo, é criar um arco-íris comum, onde a história é a protagonista.
O triunfo exige transparência e autenticidade para superar as adversidades de uma exposição constante, sem cair na armadilha dos holofotes?
O segredo está no equilíbrio. Nunca nos podemos deixar levar pela euforia das conquistas, nem pelo peso das derrotas. Sou muito nova,
embora já trabalhe profissionalmente com música há algum tempo, e isso ensinou-me a relativizar o brilho dos holofotes. Já travei muitas batalhas em que “ganhei” e outras tantas em que “perdi“, mas o mais importante é nunca nos esquecermos de quem somos, quando as luzes se apagam.
O verdadeiro triunfo não é o troféu ou o topo das tabelas. O verdadeiro triunfo é ter a oportunidade de ter mais uma batalha para lutar amanhã, independentemente do resultado de hoje. A resiliência é o que nos mantém autênticos, quando o resto é ruído.
“Até que a Morte nos Separe” espelha um romantismo, que explora a independência e a aceitação pessoal, desconstruindo a ideia tradicional de um compromisso para a vida?
Retratando um amor, que decidiu seguir um caminho diferente, o tema narra a honestidade de não nos imaginarmos com alguém para
sempre. É uma desconstrução do “felizes para sempre”, trocando-o pelo “agora”. É sobre aceitar que os ciclos terminam e que isso não invalida a beleza do que foi vivido. É o romantismo da realidade, onde a independência pessoal é tão importante quanto a partilha.
Mediante um domínio único do wordplay, a versão final de uma faixa reivindica um processo linear ou improvisado, que abraça a faceta singular de multi-instrumentista?
Escrever canções não é, de todo, um processo linear ou fixo. Cada tema é um organismo vivo e especial, sendo que umas nascem de boas histórias ouvidas ao acaso e outras de sentimentos, que transbordam de livros, de puro improviso ou da simples contemplação de um objeto.
A única regra inegociável para mim é a narrativa, que tem de ser coesa e fazer sentido. O facto de cada canção ser um caso isolado justifica também o seu instrumental. Como alguém que, mais do que tocar, é uma apaixonada por ouvir instrumentos, gosto de dar espaço e “tempo de antena” a cada um nas músicas, onde a sua presença é orgânica. A minha faceta multi-instrumentista serve a história, nunca o contrário.
A vontade de ir mais longe resultou em colaborações, que definem um estilo amadurecido?
Como compositora, sinto um fascínio enorme por explorar os mundos de outros artistas. Para mim, uma colaboração nunca é apenas uma soma de vozes, mas sim a fusão de dois universos inteiros, que cria uma ligação humana e criativa muito forte.
Tenho tido o privilégio de trabalhar com artistas que admiro imensamente. São encontros, que moldam as minhas próprias fronteiras e me fazem crescer. E o melhor é que ainda tenho muitas colaborações “secretas” para revela
2026. O futuro dita…?
… muita música. Podem esperar temas meus, composições para outros artistas e colaborações, que me tirarão da zona de conforto.
Acima de tudo, estou curiosa para ver a reação das pessoas. Se eu conseguir fazer com que quem me ouve se sinta compreendido, feliz ou simplesmente “abraçado” por uma letra minha, essa será, sempre, a minha maior e melhor conquista.










