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Mestrado noutra vertente? Porque não?

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Terminada a licenciatura, é cada vez mais recorrente os jovens enveredarem por um 2º ciclo de estudos completamente diferente da licenciatura. Seja por exigências do mercado, gosto pela área, ou até mesmo por complemento à formação anterior, o que é certo é que a transdisciplinaridade está cada vez mais assente e torna-te um profissional versátil e eclético. Inês Martins, Teresa Nóbrega e António Assis Teixeira, todos eles de áreas bem distintas e que têm em comum entre si, não seguiram o percurso dito normal.

 

Inês Martins, 24 anos, terminou em 2017 a licenciatura em Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e logo de seguida entrou no mestrado em Neurociências na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Do último ano letivo do mestrado (2018/2019), até meados do ano passado, fez investigação em Neurociências, na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, sobre os potenciais efeitos do treino musical nos mecanismos cerebrais de reconhecimento de emoções. Desde setembro de 2020 que se tornou Technical Researcher na Bitsight, uma empresa de ratings de cibersegurança, continuando ainda a colaborar com a Faculdade para a produção de um artigo científico.

O que te fez tirar um mestrado em neurociências? Eu licenciei-me em Ciências da Comunicação motivada pelo gosto na área, particularmente pela vertente de cinema e televisão. Sempre tive facilidade e gosto pela comunicação e via-me a usar isso na produção de conteúdos audiovisuais e storytelling. No entanto, quando comecei a considerar obter o grau de mestre, percebi que queria expandir mais a minha área de conhecimento e alcançar alguma interdisciplinaridade no meu percurso académico. As Neurociências surgem primeiramente por ser uma área que sempre me interessou e que nunca ficou totalmente de lado. Depois, por ser uma área que se cruza com tantas outras, comecei a perceber que poderia fazer sentido procurar uma ligação entre Comunicação e Neurociências. Portanto, esta decisão não foi motivada por alguma característica intrínseca ao curso de Comunicação, mas sim por ambição pessoal e profissional. \

Fazer investigação foi algo que fazia parte dos planos? Quando entrei em Neurociências tinha já em mente vir a fazer a ponte entre as duas áreas de estudo (Comunicação e Neurociências), e havia duas opções: ou seguir a vertente do neuromarketing, ou enveredar na investigação científica focada em temas de Comunicação através da lente das Neurociências. Ambas implicam o uso de um método científico, portanto, a investigação acabou por fazer automaticamente parte dos planos.

Sentes que a sua licenciatura e o mestrado são totalmente díspares, ou podem complementar-se de alguma forma? Podem não ser as duas áreas que mais facilmente se pense que podem interligar-se, mas existe sim uma complementaridade. Aliás, as Neurociências podem ser aplicadas a quase todas as áreas de estudo, porque quase tudo o que se faz e nos rodeia está apoiado por mecanismos biológicos controlados pelo nosso cérebro, ou está a estimular/influenciar o funcionamento do mesmo. Especificamente, em relação à comunicação, penso que o neuromarketing seja o exemplo mais evidente desta interligação entre as áreas, mas dá pano para mangas. Quando pensamos em comunicar, seja através de uma peça jornalística, de uma imagem, de um filme, num contexto empresarial, há sempre vários ângulos a explorar no que concerne à forma como o nosso cérebro recebe e processa essa informação.

O que é que o curso de ciências da comunicação te deu e que usas atualmente? Já alguma vez tinhas considerado trabalhar nesta área? Eu atualmente não estou a trabalhar em nenhuma das áreas, com alguma pena minha. Mas enquanto estive ligada à investigação, senti que o curso de Ciências da Comunicação me deu ferramentas muito úteis, no que diz respeito à comunicação e divulgação do trabalho científico.

Houve algum amigo ou familiar a incentivar esta mudança de área? Não. Foi uma decisão totalmente assente nas minhas motivações pessoais e profissionais.

Serias capaz de enveredar novamente por uma outra área? Não está nos meus planos enveredar por nenhuma outra área. Aliás, neste momento não estou a trabalhar em nenhuma das áreas devido às faltas de oportunidades na investigação científica (mas isso seria outra conversa ahah) e, por isso, ficou aquele sentimento de plano por cumprir. O objetivo será eventualmente regressar à academia e dar continuidade ao estudo das Neurociências, finalmente aplicadas a temas de comunicação, como foi sempre o objetivo inicial.

 

Teresa Nóbrega, 29 anos, Médica de Clínica Geral, Mestre em Saúde Pública pela Universidade Nova de Lisboa e estudante de Doutoramento em Políticas Públicas no ISCTE. A pressa para se dedicar a tempo inteiro às suas paixões – Saúde Global, Direitos Humanos e conhecer novas culturas – empurrou-a para fora da carreira médica tradicional e atualmente trabalha na Guiné-Bissau, no Programa para a Redução da Mortalidade Materna e Infantil. Fez voluntariado desde cedo e envolveu-se ativamente no associativismo durante o seu percurso académico.

Tiraste o curso de medicina e está atualmente a trabalhar num projeto de cooperação para o desenvolvimento de saúde pública na Guiné. Quando é que percebeste que não querias fazer o percurso de medicina dito tradicional? O motivo que me fez escolher medicina foi unir o conhecimento a ajudar os outros. Nesse sentido, desde cedo e motivada pelos projetos de voluntariado em que me envolvi, fui aprofundando conhecimento sobre missões de ajuda humanitária e de cooperação para o desenvolvimento. Desde a adolescência, quanto mais me envolvia, mais me ia consciencializando de outras realidades tão díspares daquela em que nós tivemos sorte de nascer, das desigualdades, não só a nível internacional, mas também em Portugal e na Europa. Em 2012, rumei a Cabo Verde numa missão de um mês de voluntariado com o GASTagus, após um ano de preparação, formação e voluntariado em Portugal. Regressei da missão com gratidão infinita e com a certeza de que queria fazer daquela experiência uma forma de estar na vida, voltar como médica, consciente que podia dar um contributo importante. Aí surgiu o interesse pela saúde pública e por isso foi só construir um projeto pessoal a partir daí.

Sentes que o curso te deu as ferramentas necessárias para estar a trabalhar num projeto que exige tanto a nível físico e emocional? Sem dúvida. A preparação de um médico começa muito antes da universidade e todo o percurso é muito exigente. Não acho que exista um perfil específico porque todos somos diferentes, mas há uma característica transversal, a capacidade de trabalho. O curso, para além de todo o conhecimento científico e raciocínio clínico que gerou em mim, permitiu-me aprofundar competências sociais, de liderança, de comunicação, de gestão do tempo, de gestão da frustração e do stress, de trabalho em equipa, etc. Acredito que o associativismo também teve um papel importante nestes aspetos. O meu percurso académico foi um período de grande desenvolvimento pessoal sem o qual provavelmente não estaria preparada para este tipo de desafios.

Como é que este projeto surge na tua vida? Quando terminei o mestrado em saúde pública, tinha dois anos de experiência clínica em Portugal a somar a um ano de estágio profissionalizante, o que para a maior parte das posições de trabalho internacional não é suficiente. Decidi enviar candidaturas espontâneas com o meu CV a explicar as minhas motivações, em particular para ONGs que desenvolvem projetos de saúde infantil, a minha área de interesse. Certo dia fui contactada por uma dessas instituições, e após entrevista, fui contratada.

Já alguma vez tinhas considerado trabalhar num projeto destes? Sim, sem dúvida, já estava nos meus planos há muitos anos e pretendo continuar.

Houve algum amigo ou familiar a incentivar essa decisão? Óbvio que qualquer família deseja uma vida estável e um caminho seguro para os seus. Ao terminar o curso de medicina que sempre se sonhou, ninguém está à espera que se diga que não se quer seguir o caminho habitual. Atualmente, ninguém tem um caminho garantido, nem as profissões consideradas classicamente “mais seguras”, e ninguém vai fazer a mesma coisa a vida toda, por isso, mais vale investirmos nas nossas paixões e sermos fiéis aos nossos sonhos. Acredito que para sermos bons profissionais devemos estar felizes. Mesmo que a início tenham achado estranho, ao perceberem o quanto era importante para mim, a minha família e amigos apoiaram-me incondicionalmente. Para além disso, tenho conhecido muitas pessoas de todo o mundo com percursos muito diversificados e transdisciplinares, que me demonstraram que fora de Portugal já é muito incentivado fazer um percurso individualizado.

 

António Assis Teixeira, licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, começou depois o Mestrado em Ciências da Comunicação na Católica. Pelo meio fez formação em jornalismo e televisão no CENJOR, tendo sido escolhido para representar a escola no Campeonato Mundial das Profissões em Abu Dhabi, onde esteve em reportagem durante duas semanas. Entrou na TVI como estagiário na editoria de sociedade em novembro de 2017, onde permaneceu seis meses. Em 2018 foi contratado para a editoria de sociedade, estando mais ligado aos temas de justiça. Entretanto já passou pela equipa de política e atualmente faz parte da equipa do Jornal das 8.

Tiraste o curso de Direito, no entanto, trabalhas atualmente como jornalista no quarto canal generalista. Porque é que o jornalismo não foi a tua primeira opção? Entrei na faculdade em 2012, num ano em que os números do desemprego eram preocupantes. Para mim fazia sentido que a licenciatura me permitisse fazer aquilo que eu queria, mas ao mesmo tempo dar-me um caminho alternativo caso não resultasse, e o curso de Direito, pela abrangência de matérias que tratamos, pareceu-me ser o mais indicado.

Sentes que o primeiro curso te desiludiu de alguma forma e te fez sentido procurar uma segunda opção? Não, quando fiz a licenciatura já tinha decidido que queria fazer o segundo ciclo de estudos em jornalismo. Pelo contrário, a licenciatura em Direito surpreendeu-me e acabei por gostar muito mais do que alguma vez pensei, embora seja uma licenciatura trabalhosa, como todas. Nesta acresce o facto de ser uma licenciatura de quatro anos, com cadeiras muito densas, que se ultrapassam com a dose certa de dedicação.

Porque é que a tua escolha recaiu sobre o jornalismo? Como é que esta área surge na tua vida? Sempre quis ser jornalista desde que me lembro. Desde muito novo que é uma área que me fascina na qual sinto que podemos fazer a diferença na vida de alguém: seja ao denunciar uma situação que não está certa, seja no simples ato de informar e dar conta daquilo que se passa, seja pelo privilégio de poder estar presencialmente em momentos que mudam a história do País e do Mundo.

Sentes que as duas áreas são totalmente díspares ou complementam-se de alguma forma? São bastante mais complementares do que se possa pensar. No meu caso tratei e tenho tratado de muitos temas ligados à justiça, e a minha licenciatura tornou-se uma chave para conseguir ter acesso a este tipo de temas, e sinto que tiro proveitos de ter essa especialização. O jornalismo é sempre melhor quanto mais informação temos em relação ao tema que estamos a tratar: seja na economia, na política, na justiça ou no desporto.

Já alguma vez tinhas considerado trabalhar nesta área? Trabalhar em jornalismo televisivo sempre foi o meu objetivo dentro dos vários meios disponíveis dentro da área. Em todos eles há vantagens e desvantagens, mas a televisão continua a ter o encanto de trabalhar constantemente sob pressão (para quem se dá bem nesta realidade é um fator de desafio) e muitas vezes sem rede. Trabalhar em direto é um teste muito interessante às nossas capacidades comunicativas.

Ao nível da formação, o que procuraste fazer? O meu mestrado foi em Ciências da Comunicação, na vertente de Media e Jornalismo na Universidade Católica. Aqui tive um primeiro contacto com a área e com profissionais do setor, e serviu sobretudo para perceber que tipo de mercado é que vamos encontrar. O mestrado é sempre mais teórico, embora tenha tido oportunidade de experimentar pontualmente algumas áreas durante esse tempo. Depois fiz formação em televisão no CENJOR – Centro de Formação Protocolar para Jornalistas, em vários ateliês: desde reportagem até à apresentação. Senti que seria necessário aproximar a minha linguagem da linguagem televisiva antes de tentar um estágio na área.

Achas que o jornalismo ainda é visto como uma profissão precária? Sim, ainda existe alguma precariedade e é um dos grandes problemas da profissão, que espero que tenha solução. Acredito que a solução também está nos profissionais, se batalharmos por melhores condições de trabalho. Certo é que há muitos cursos de jornalismo e de comunicação, ainda mais jovens licenciados para poucos lugares, e aqui as leis de mercado acabam por funcionar a meu ver de forma prejudicial para a profissão, porque a procura é enorme para uma menor quantidade de vagas.

Houve algum amigo ou familiar a incentivar esta mudança de área? Ninguém a incentivou, foi sempre um plano pessoal, mas houve dentro da família quem encorajasse começar de forma diferente. O meu Pai aconselhou- -me a fazer a licenciatura em Direito fosse pelas portas que abre, fosse pela tradição que existe na família. E foi a melhor decisão que tomei.

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