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Entrevista | Professor Marcos Morgado: “É complicado gerir a distância, nós temos a necessidade de estar próximos”

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Imagem cedida pelo entrevistado

Num momento em que as escolas migraram para o universo digital e que as fronteiras físicas entre professores e alunos se reergueram, falámos com o professor Marcos Morgado, professor de Educação Física, sobre como é ser professor à distância e a importância de tornar a escola um ambiente mais estimulante para os seus alunos, em prol de uma educação mais global e atrativa.

1. Enquanto professor porque é que sentiu a necessidade de adotar as novas tecnologias?

Enquanto professor sempre entendi que dar este passo tecnológico era inevitável, não podemos ensinar como ensinávamos há 20 anos, mesmo em disciplinas práticas como é o caso da minha disciplina, eu sou professor de Educação Física. Eu entendi que as tecnologias são uma oportunidade para os alunos aprenderem as matérias das disciplinas, de uma forma mais ativa. Não há como lutar contra as horas que eles passam no telemóvel, ou no computador, mas eu posso aproveitar esta realidade a meu favor. E foi nesse momento que comecei a envolver-me mais ativamente com as tecnologias aplicadas à educação.

No primeiro confinamento integrei a equipa que elaborou o plano de intervenção tecnológica da minha escola, e desde então tenho feito formações na área e, tenho tentado inovar dentro da minha disciplina e assim, cheguei ao conjunto de aplicações que utilizo atualmente, e entre elas utilizo o Flipgrid. Eu já tinha ouvido falar muito bem da ferramenta, e comecei a explorá-la mais ativamente para a utilizar nas minhas aulas.

2. Como é que funciona o Flipgrid?

Esta aplicação transforma os antigos fóruns escritos online, em fóruns que utilizam o vídeo como recurso principal, no fundo, é um fórum mais moderno.O professor lança uma pergunta e os alunos interagem, não através da escrita, embora isso também possa ser feito, mas através de vídeo e assim, gera-se uma pequena discussão entre o grupo. É uma plataforma bastante completa que pode ser utilizada em qualquer disciplina, tendo recursos ainda específicos para se trabalhar as Línguas.

E a parte mais interessante é a aproximação que se faz à realidade dos jovens, porque eles já publicam vídeos no Instagram e no TikTok, então, porque não promover a publicação de vídeos que visem o seu desenvolvimento educativo. E é isto que eu tento fazer.

Os meus alunos fazem os exercícios, gravam-nos e partilham-nos, e eu faço o mesmo. Deste modo, os alunos têm a oportunidade de avaliar uns aos outros, verificando a correção dos exercícios e usando palavras de reforço positivo aos colegas, tudo através de vídeo.

3. Com essas interações online entre os pares mais positivas, acha que modifica ou ajuda a combater o cyberbullying e outros fenómenos associados?

Nós não podemos ver os jovens como o aluno de Português, o aluno de Inglês ou o aluno de Educação Física, eles são indivíduos e temos de os ver de forma global, o aluno tem de ser o foco. Ele deve dominar várias aprendizagens essenciais para sua formação. Sem descurar dos conteúdos de cada disciplina, devemos olhar para os alunos de uma maneira mais global.

Nesse sentido, é preciso envolver os sentimentos, as emoções, o sentido de cooperação e crítico, porque é esse o meu objetivo quando lhes permito comentar o trabalho dos colegas, é que eles trabalhem o seu sentido crítico, de cooperação e inter-ajuda. As palavras têm uma força muito grande, porque quando eu elogio eu vou ajudar o meu colega a crescer, mas quando eu recebo um elogio eu também vou crescer e, acho que esta noção do todo é muito importante e deve ser transmitida na formação global dos alunos.

4. De que forma a utilização desta ferramenta, modificou a sua forma de ensinar e dar aulas?

Não sei se modificou, mas certamente foi um acrescento à minha forma de lecionar. Eu continuo a dar as minhas aulas e a lecionar o programa da minha disciplina, mas para além disso, eu agora eu tento fazer com que os alunos se envolvam mais com a disciplina através dos recursos tecnológicos, seja na elaboração de uma tarefa, de um projeto, seja através da prática de exercícios físicos em casa ou no meio envolvente.

Acho que é uma forma de fazer com que os alunos tenham contacto com a minha disciplina, mesmo depois do período de aula. As aulas não se devem resumir aos 50 minutos ou aos 100 minutos de tempo de aula. Eu quero o meu aluno envolvido por mais tempo, se ele tiver de utilizar uma aplicação, ótimo, até porque neste momento eles não podem estar fisicamente no ginásio, e por isso o principal é que continuem a ter contacto com a disciplina e praticarem exercícios físicos, principalmente neste momento de confinamento.

Eu quero que eles também desenvolvam uma cultura desportiva e consigam discutir com os seus amigos, pais, filhos, companheiros/as, por exemplo, um jogo de qualquer modalidade desportiva. Por isso, acho que com a utilização desta ferramenta acrescentei valor às aulas e, tem funcionado muito bem até agora.

5. Qual foi a recetividade dos alunos face à ferramenta?

Inicialmente há sempre aqueles 15 minutos de adaptação, porque são mesmo isso 15 minutos, eles aprendem mesmo muito rápido. E quando se inverte a aprendizagem, quando é o aluno a ser ativo no seu processo de aprendizagem, ele começa a pesquisar e a trazer me conteúdos novos e dúvidas que eu nem sempre sei responder e, isso leva-me a explorar mais para depois poder partilhar informação com ele.

Em relação ao Flipgrid eles gostam imenso, fazem os vídeos, mas também utilizam os emojis, podem colocar fundos virtuais, coisas simples, mas que lhes são familiares de outras plataformas que utilizam no seu dia a dia e aqui o objetivo é aprender, e entrar em discussões positivas com os colegas.

A utilização desta ferramenta tem sido muito interessante em contexto de aula, mas também em projetos eTwinning, nos quais estou envolvido, são projetos internacionais, e tenho utilizado essa ferramenta para os alunos fazerem apresentações e conhecerem os seus pares de outros países.

O mundo está a precisar de mais interação e com esta tecnologia, eu consigo criar mais interação e de uma forma positiva, promovendo a cooperação entre os colegas e incentivando-os a superarem-se.

6. Acha que a idade cada vez mais elevada dos professores é um problema, ou um obstáculo a esta modernização do ensino e da forma de dar aulas e ensinar?

Eu acho que é um problema, mas não é um obstáculo! Para ser um obstáculo, depende da motivação de cada um. Eu continuo sempre a querer aprender mais, e mobilizo os meus colegas a trabalharem em projetos multidisciplinares e tenho tido grandes surpresas por parte de colegas, que já estão no último escalão da carreira, mas que continuam com a energia de querer fazer mais e fazer diferente. Não são muitos, mas entende-se pelo desgaste da profissão e, ainda porque pode não ser fácil para as gerações mais velhas, compreender todas as mudanças que aconteceram nos últimos tempos, não é fácil, mas acredito que é possível transpor esse obstáculo.

7. Na sua perspetiva, os avanços tecnológicos aumentaram o fosso entre a escola e os alunos?

Esse fosso era muito grande, antes da pandemia. Quando começaram as aulas à distância, os docentes tiveram de se readaptar, e alguns ainda não se adaptaram à tecnologia, porque ainda tentam adaptar as aulas físicas às digitais e, esse não é o caminho, é preciso reinventar as aulas e os conteúdos. Mas tenho muitos colegas que agora me perguntam, como é que podem abrir uma turma no classroom ou, como é que podem interagir a partir de determinada ferramenta digital, por isso, noto que agora esse fosso ainda existe, mas é menor. E se tentarmos procurar alguma coisa positiva na pandemia, é realmente o facto de ter forçado as escolas e os professores a fazer diferente.

8. Por outro lado, acha que o Ministério da Educação já deveria ter forçado essa mudança há mais tempo?

Acho que sim. Nós não estávamos preparados para esta mudança tão drástica. E isso obrigou o Ministério a agir, e tem já avançado com algumas formações e, irá avançar agora o Plano de Ação para a Educação Digital. Mas esta também é uma tarefa difícil para o Ministério, porque depende da sensibilidade dos professores e, até então, haviam muitos que eram resistentes à mudança. Agora temos muitos recursos disponíveis e, teremos provavelmente mais formação nesse sentido, para desenvolvermos mais competências de forma a tirarmos partido destes recursos para o desenvolvimento dos nossos alunos.

9. Em que medida a escola deveria se reinventar para acompanhar esta evolução?

Eu acho que as aulas devem ser presenciais, pois nada será capaz de substituir a relação de ensino aprendizagem construída dentro da escola e entre professores e alunos, no entanto, os recursos digitais podem complementar as aprendizagens da sala de aula. Os alunos passam muito tempo na escola, as disciplinas, de um modo geral, apresentam programas muito extensos e, por vezes, com poucas oportunidades de os porem em prática. É preciso também que os alunos possam ter tempo para fazer desporto, atividade física, teatro, música, outras atividades que eles também gostam, mas que, por vezes, não o conseguem fazer por falta de tempo.

Também é verdade que é preciso que os alunos também se adaptem a esta nova realidade, porque esta oportunidade de fazer diferente e utilizar as tecnologias para a sua educação, nunca lhes tinha sido dada desta forma, eles estavam habituados a ser mais passivos, sentavam-se nas salas e limitavam-se a ouvir o professor. Por exemplo, os professores, regra geral, abominam o telemóvel, e eu acho que o telemóvel quando bem utilizado, é uma ferramenta útil e interessante. É nela que eles passam grande parte do tempo e, estão adaptados aos estímulos que recebem ali, portanto porque não utilizá-lo de uma forma construtiva e educativa?

10. Nas aulas à distância o que é mais difícil de gerir?

É complicado gerir a distância, nós professores temos a necessidade de estar próximos dos alunos, para os poder acompanhar. Por outro lado, na atual situação que vivemos, nas aulas presenciais tem sido muito complicado gerir o distanciamento social, pois é muito difícil para um professor quando um aluno tenta se aproximar e nós temos que dar passos para trás para manter a distância de segurança. Como eu posso estabelecer esta relação de aprendizagem, quando ele se dirige a mim com uma dúvida e tenho de me afastar?

11. Qual é o impacto das aulas à distância para os alunos e professores?

A tecnologia não é perfeita e com as aulas online perde-se muita coisa, as interações são ainda difíceis, implica uma preparação muito maior por parte dos docentes, porque criar uma aula dinâmica dá trabalho, e temos de repensar as aulas completamente. Porque trazer o ambiente de sala de aula para o online não está correto, e não é isso que se pretende. É preciso criar novos conteúdos onde o aluno é o foco da aprendizagem, o professor deve ser um guia e um facilitador do caminho que devem ser os alunos a percorrer. As aulas à distância são uma boa oportunidade para dar essa autonomia, responsabilizá-lo também pelas suas próprias aprendizagens.

12. A covid-19 impulsionou este investimento das escolas nas tecnologias, quais são as principais diferenças que hoje, depois do início da covid-19 podemos apontar?

É uma pergunta um pouco difícil. Do ponto de vista pedagógico estamos mais preparados, conseguimos criar situações mais híbridas de aprendizagem. Os alunos, apesar de acharmos que eles dominam as tecnologias, há coisas básicas que eles não sabem fazer, como mandar um e-mail ou criar um meet, mas por outro lado, sabem criar um TikTok. Temos que criar situações educativas que promovam o gosto pelo aprender e assim, naturalmente os alunos irão se envolver mais. Já perdemos o hábito de escrever através de cartas, e agora a maioria da comunicação formal migrou para o e-mail e saber escrever um e-mail é fundamental e isso deve ser ensinado na escola, deve haver essa aposta.

13. Do seu ponto de vista, qual é o futuro educativo das escolas para se aproximarem dos alunos e aumentarem o sucesso escolar dos mesmos?

Sem a pandemia dificilmente as coisas teriam mudado, as escolas iriam continuar à margem da realidade. A escola tem de ser um espaço apetecível para os alunos, desafiante. Hoje os alunos se envolvem muito em jogos, podemos aproveitar esta realidade e apostar na gamificação da educação, criar momentos onde o jogo possa ser utilizado como caminho para aprendizagem. Quando o aluno joga Fortnite, ou qualquer outro jogo em inglês, ele está a comunicar com os seus pares em inglês, e está a praticar, talvez, aquilo que considero mais importante na aprendizagem das línguas, a comunicação. Então, porque é que esse método de aprendizagem não pode ser considerado? Eu quando faço uma prova de orientação posso utilizar os recursos de geolocalização do telemóvel dos alunos, posso utilizar as câmaras para fotografar o meio envolvente, o património entre outras possibilidades.

Eu acredito que as escolas devem ser abertas, sem muros e devem ter um plano educativo que vá mais de encontro a necessidade das próximas gerações. Uma escola mais centrada nos seus alunos e naquilo que eles necessitam aprender. E deve destacar os bons alunos, que devem servir de exemplo, devem ser premiados à medida que vão evoluindo no seu percurso, cada um no seu caminho. É preciso valorizar vários percursos porque nem todos vão seguir medicina e isso, não tira o valor de outros percursos tão importantes como.

Eu também leciono nos cursos profissionais e fico contente pelo facto de já não existir, de forma tão vincada, a ideia de que quem vai para o ensino profissional é menos competente comparativamente aos restantes. Eu tenho tido alunos do ensino profissional que quando terminam a sua formação vão também para o ensino superior e são bons alunos. A via profissional é um caminho igualmente importante. São alunos com a necessidade de adquirir mais competências práticas. Por fim, considero que as escolas devem ser um espaço de aproximação com a aprendizagem, onde o aluno está no centro da intervenção e os professores são os facilitadores deste processo sendo uma figura de referência e de apoio aos alunos.

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