Connect with us

Em destaque

Entrevista a Alexandre Meireles, Presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários

Mais Educativa

Publicado há

em

Alexandre Meireles

O mercado de trabalho procura em ti um conjunto de competências, capacidades e qualificações que deverás adquirir ao longo da jornada que é o ensino, mas também da tua vida além dos estudos. Estamos aqui para te ajudar a perceber o que esperar desta nova etapa que é a procura de emprego, após a conclusão do Ensino Superior. O mercado de trabalho de hoje é muito diferente do mercado de trabalho da altura dos teus pais e avós. Existem certas áreas que têm vindo a crescer cada vez mais, e outras que têm perdido força. Para te ajudar a entender o que mudou e o que pode vir a acontecer no futuro, falámos com o Presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), Alexandre Meireles.

O que pede hoje aos jovens o mercado de trabalho? O que mudou desde a altura em que os pais destes começaram as suas vidas profissionais?

O mercado de trabalho dá hoje tanto valor às hard skills (competências técnicas e conhecimentos científicos) dos jovens qualificados como às suas soft skills (competências pessoais e sociais), o que não acontecia no tempo dos seus pais.

Entre as hard skills, há atualmente uma preferência pelas áreas das tecnologias da informação, indústria e logística, ciências da vida e da saúde, gestão, contabilidade e finanças, direito, recursos humanos e marketing e vendas. No que se refere às soft skills, os empregadores procuram jovens com qualidades de liderança (capacidade de decisão e mobilização, determinação, integridade, responsabilidade, facilidade de comunicação e de resolução de conflitos, etc.) e que sejam dotados de criatividade, pensamento crítico, adaptabilidade a várias funções e ambientes, gosto pelo trabalho em equipa, mobilidade e espírito cosmopolita.

Muito mais do que nas gerações anteriores, o mercado de trabalho atual valoriza as competências técnico-científicas com elevado grau de especialização e que implicam uma formação académica mais longa e aprofundada. Por outro lado, os empregadores procuram jovens que, para além das hard skills, tenham características pessoais que se encaixem na cultura das empresas e que acrescentem valor às suas dinâmicas internas.

Está ainda enraizada a noção de “emprego para a vida”? Ou as novas gerações têm perspetivas e ambições diferentes?

O conceito de “emprego para a vida” está perfeitamente obsoleto. O rápido avanço tecnológico obrigou não só a uma renovação de conhecimentos e competências, como também à própria reconfiguração do mercado de trabalho, que passou a ser mais flexível. Neste contexto, as novas gerações têm, ao longo das suas carreiras, de desenvolver novas competências e de abraçar novas atividades profissionais.

Ora, esta situação não lhes é particularmente desconfortável, pois, na generalidade, os jovens parecem desvalorizar a ideia de estabilidade profissional. Procuram novos desafios, estão abertos à mudança, gostam de arriscar, desejam ter novas experiências e valorizam o bem-estar, a mobilidade e a flexibilidade mais do que uma carreira estável.

Estarão essas expectativas em sintonia com o que o mercado de trabalho pede atualmente?

Creio que ainda não. O mercado de trabalho em Portugal continua a ser algo rígido e conservador, havendo por isso alguma resistência a modelos de emprego menos convencionais. Muitas empresas ainda não dão aos jovens os desafios, a flexibilidade, a autonomia, a mobilidade e o bem-estar que estes procuram.

Contudo, a atual crise pandémica parece estar a acelerar algumas novas tendências do mercado de trabalho, como a digitalização das atividades e o teletrabalho.

Sabemos que o gosto e a vocação são fatores importantes no momento da escolha de uma determinada área formativa. Mas se olharmos exclusivamente para a empregabilidade e para as necessidades das empresas, quais são hoje as melhores opções a tomar? Que setores de atividade se encontram em maior expansão e que profissões lhe estão associadas?

Há um peso crescente da especialização tecnológica na organização económica e, por consequência, no mercado de trabalho. Logo, os jovens devem direcionar as suas opções académicas para cursos que formem talento altamente especializado e diferenciador, tornando-se assim potencialmente apetecíveis para as empresas que competem por brainwear.

Como já aqui referi, o mercado de trabalho tem vindo a valorizar as hard skills nas áreas das tecnologias da informação, indústria e logística, ciências da vida e da saúde, gestão, contabilidade e finanças, direito, recursos humanos, marketing e vendas. Estão em alta profissões como data scientist, software developer, machine learning engineer, engenheiro de automação e robótica, analista de risco, controller, responsável de recrutamento, responsável de proteção de dados, marketeer, account manager, médicos, biólogos, farmacêuticos…. Enfim, um conjunto de atividades altamente especializadas, com perfil tecnológico e alinhadas com as necessidades da economia do conhecimento.

Estão as nossas instituições de ensino a conseguir acompanhar as mudanças no mercado de trabalho e a preparar corretamente os nossos alunos?

As instituições de ensino superior têm vindo a adequar a sua oferta de cursos, os seus modelos de ensino/ aprendizagem e os seus ecossistemas científicos às mudanças no mercado de trabalho. Verifica-se hoje nas universidades e politécnicos um maior investimento na inovação e na investigação aplicada, uma maior promoção do empreendedorismo, um maior esforço de transmissão de competências digitais, uma maior oferta de cursos de áreas tecnológicas, uma maior aposta na multi e interdisciplinaridade curriculares, uma maior preocupação com o desenvolvimento de soft skills, uma maior atenção à aprendizagem ao longo da vida e uma maior ligação às empresas.

Mas há ainda um longo caminho a percorrer na relação entre o meio académico e o meio empresarial. Antes de mais, impõe-se um alinhamento mais estreito da oferta formativa das instituições de ensino superior à realidade socioeconómica do país, o que pressupõe cursos mais práticos e focados nas empresas.

Depois, as universidades e politécnicos devem ajustar as suas rotinas de produção científica e a própria natureza do conhecimento produzido às necessidades do tecido empresarial. Por fim, há que apostar num ensino orientado para a aplicação do conhecimento e para o empreendedorismo tecnológico.

Ao olharmos para o mercado de trabalho, que análise e previsões podemos fazer para os próximos 5, 10 anos? O que vai mudar? Que profissões estão em perigo, que outras vão prosperar e que outras ainda poderão surgir?

A 4.ª revolução industrial está a provocar mudanças profundas nos modelos de negócio e no funcionamento orgânico das empresas, colocando uma pressão acrescida sobre o mercado de trabalho.

Na 46.ª edição do World Economic Forum, em Davos, foi prevista a perda de cinco milhões de empregos nas principais economias mundiais. Importa, contudo, ter presente que a humanidade soube reagir à mecanização da agricultura e às três revoluções industriais anteriores, que tornaram obsoletas muitas atividades, profissões e técnicas. Obviamente que houve instabilidade social mas, a longo prazo, o balanço foi positivo: os processos de industrialização criaram mais empregos do que aqueles que destruíram. Estou por isso convencido de que as tecnologias digitais vão gerar oportunidades de emprego, desde que as sociedades saibam qualificar as pessoas de forma a dar-lhes capacidade de adaptação.

Dito isto, creio que as profissões mais rotineiras, menos especializadas e que não exigem conhecimento científico, talento tecnológico ou criatividade correm mais riscos de desaparecer ou de serem substituídas por inteligência artificial. Há, por outro lado, profissões novas e em franco crescimento ligadas ao software, às tecnologias digitais, ao e-commerce, às redes sociais, ao big data e às energias alternativas. No futuro, e como estamos dramaticamente a perceber hoje, podem surgir novas profissões relacionadas com o controlo de pandemias, com a qualidade sanitária de espaços públicos, com a biomedicina, com a gestão hospitalar, com a assistência a idosos, com a proteção civil e com todas as atividades realizadas remotamente com recurso a tecnologias digitais.

Texto de: Beatriz Cassona

Fica a conhecer a edição de 2020/2021 do Guia de Acesso ao Ensino Superior da Mais Educativa aqui!

Advertisement
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *