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Entrevista: Diogo Piçarra, o vencedor do Best Portuguese Act

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Vai para o estúdio todas as manhãs: defende que o sucesso só se alcança se trabalharmos diariamente para isso. À noite, gosta de estar em casa com a família, a namorada e os gatos. Por volta das doze badaladas, falta-lhe o sono: é aí que pega na guitarra e tenta concretizar as ideias que durante o dia lhe surgiram. A Mais Educativa falou com Diogo Piçarra, vencedor do Best Portuguese Act nos MTV EMA’s em Bilbao, para entender o que muda depois desta enorme distinção.

Antes de mais nada, parabéns pela conquista! Qual é a sensação de ser distinguido pela MTV como Melhor Artista Português?

Foi uma enorme surpresa. Passei o tempo a negar que havia a possibilidade de ganhar, porque costumo ser sempre um bocado pessimista. Estava convencido que já era muito bom ter sido nomeado, que de certeza que ia ser a Bárbara Bandeira ou a Blaya a vencer, porque fizeram isto ou aquilo, ou a Carolina, que esteve também muito bem. Arranjo sempre razões para os outros ganharem e nunca para mim, fiz isso toda a minha vida e com este prémio não foi exceção. Ainda por cima, estava fora do país – e também considerei que isso pudesse ser um motivo para não ganhar, “Vou estar ausente, nem sequer posso ir a Bilbao… Por isso não me vão dar o prémio, óbvio que vão escolher outra pessoa.”

Quando é que te caiu a ficha?

Quando cheguei a Portugal e as pessoas me começaram a dar os parabéns, eu nem associava bem o porquê! Lembro-me de ter acordado em Los Angeles, de manhã – ou seja, já era de tarde em Portugal – e havia muitas publicações e partilhas em todo o lado, a falar sobre o prémio. Apanhei tudo a meio. Na noite anterior, assim que fecharam as votações, tinha escrito no Twitter que, fosse qual fosse o resultado final, era um orgulho ter chegado ali. Para mim, ser finalmente nomeado – depois de anos de trabalho, concertos, discos, participações –  já era um enorme reconhecimento.

O que muda depois desta vitória?

Algo tem de mudar. Especialmente pela responsabilidade que te dá o facto de seres considerado o Melhor Artista Português. No entanto, e embora possa parecer contraditório, acima de tudo não muda nada: o trabalho estava planeado e tudo o que tinha organizado vai acontecer. Claro que há questões que não planeamos, que surgem sempre surpresas. Por exemplo, a música com AnavItória (Trevo), ou mesmo outras colaborações que tenho feito com pessoas que vou conhecendo. Esta viagem a L.A. também foi uma enorme surpresa, há sempre acontecimentos inesperados. Depois deste prémio, a minha vida continua a mesma… Mas encaro-o como uma grande responsabilidade, um marco na minha carreira. Estou desde 2015 a lançar discos e desde 2007 a fazer música – seja com bandas ou sozinho, em bares ou em concursos de talento… E agora chegou o reconhecimento enquanto Melhor Artista Português… Sinto que cresci!

A verdadeira mudança já veio há mais tempo, quando deixaste de ser o Diogo para passares a ser o Diogo Piçarra…

Não me lembro de isso acontecer, de um dia ser o Diogo e no outro ser o Diogo Piçarra… Foi tudo muito gradual, nunca aconteceu uma mudança repentina. Sempre fui fazendo música, vídeos com covers para o YouTube… Fui sendo reconhecido ao longo do tempo. Claro que houve um boom desde o Ídolos, porque estava todos os domingos na televisão, as pessoas viam-me e votavam em mim. Quando venci, o meu número de seguidores aumentou bastante. Na altura, fui para Londres estudar e depois, quando voltei, lembro-me de sentir que algo tinha mudado. Aqui, quando passava na rua, já começava a ouvir as pessoas a dizer “Olha, é o Diogo dos Ídolos!”. Aí sentes um carinho enorme e uma grande diferença: já não és anónimo e, de certa maneira, já és alguém para o público. Depois, quando lancei o primeiro disco em 2015, a mudança foi enorme: desde que fiz músicas como a Tu e Eu e a Dialeto, nunca mais fui o Diogo apenas. E espero não voltar a ser, para o público em geral. Mas em casa? Continuo a ser o Diogo, é quem sou quando me olho ao espelho.

Tens saudades de algo que fazias antes de ser reconhecido?

Vivemos num país muito calmo em relação a fama e a manifestações de assédio por parte de groupies.Tenho muita sorte em ser português, nesse sentido. Continuo a fazer a minha vida normal! Claro que não saio tanto à noite, mas isso é mais pela minha profissão. Gosto de ficar em casa ou no estúdio a noite inteira, prefiro isso a sair e ir beber copos até às 6 da manhã. Há tempo para me divertir também, sou uma pessoa normal que gosta de animação e lazer, mas encaro a minha profissão como um trabalho de todos os dias. Acordo e vou para o estúdio, tenho objetivos planeados. Penso “Hoje tenho de fazer uma música, amanhã tenho de pensar numa letra para outro artista, num disco, numa ideia para um videoclipe ou numa capa para um álbum.” Trabalho todos os dias e, acima de tudo, faço a minha vida normal. Já vivi de perto a realidade espanhola e alguns dos participantes da Operação Triunfo não tinham essa sorte. Estive lá durante uns dias com eles, a escrever umas músicas. E estes concorrentes nem podiam pôr um pé fora do hotel sem encontrarem logo 20 ou 30 fãs à espera que eles saíssem… E eu passava, tranquilo, e pensava “Posso viver!”. Há pessoas que me abordam em sítios públicos, isso é normal. Mas lá é surreal, os artistas não podem dar um passo que todos sabem o que eles fazem.

No início da tua carreira, em quem mais te inspiravas?

Os Linkin Park deram-me uma força enorme, fizeram-me ganhar a motivação necessária para entrar na música e aprender um instrumento. Limp Bizkit e Green Day também são exemplos, essas bandas faziam-me ficar fechado no quarto a ouvir os discos deles no volume máximo, a imitá-los e a cantar a altos berros. Foi aí que nasceu esse bichinho – que me fez um dia acordar, virar-me para o meu pai e dizer “Olha, quero aprender um instrumento”. Ele ficou confuso, disse “Então? Mas tu jogas à bola, o que queres fazer afinal?” (risos). Eu nem sabia, só sabia que queria aprender e que parecia que alguma força me levava para aí. E foi assim que, aos 17 anos, comecei a tocar guitarra. 

E fora do mundo da música, onde te inspiras?

Quem mais me inspira é a minha família. Sou muito ligado a eles: aos meus pais, ao meu irmão, à minha namorada, aos meus gatinhos. Sou muito caseiro e os meus pais sempre foram a minha fonte de inspiração, o lugar onde vou buscar força. Eles sempre acreditaram muito mais nesta carreira do que eu! Eu cantava lá por casa, era feliz a fazer música para mim. Mas eles incentivavam-me, compravam-me os instrumentos e inscreviam-me nos concursos. Da última que participei, foi porque os meus pais quase me obrigaram! Disseram “Vá, Diogo, é a última vez que te inscrevemos e já não te chateamos mais!”. Pronto, e foi mesmo a última… Porque venci!

Como funciona o teu processo criativo, sentas-te e obrigas-te a escrever ou é espontâneo?

É uma mistura dos dois. Quase 80 % é estar em casa, enfiado no quarto, agarrado à guitarra e ao piano, em busca de inspiração. E isso é importante de sublinhar, porque eu não me sento e espero que ela apareça. Tenho de trabalhar todos os dias, ouvir muita música. Quanto aos restantes 10 %, é estar na rua ou em qualquer outro local, pegar no telefone ou no bloco de notas e apontar uma ideia, um conceito. Depois, quando chega a meia noite – aquela hora em que perco o sono – agarro-me ao computador e tento concretizar essas ideias. Às vezes nada surge, mas tento. Ter dias bons e dias maus faz parte do processo. Ao final de um ano, pouco a pouco, já tenho muito trabalho feito.

Quem ouve as tuas músicas consegue, através das letras, perceber quem tu és? Ou há ali muita ficção?

Nem todas as músicas são biográficas. Muitas são, especialmente as do primeiro disco – foi por isso que demorei quase 6 anos a escrevê-lo. Costumo dizer que o primeiro disco é o disco da nossa vida. No segundo já tens aquela pressão de ter de cumprir os prazos, de preparares tudo naquele tempo. Isto porque a indústria te obriga a tal e os fãs querem mais novidades.

Qual é a música mais verdadeira que tens?

É precisamente a Verdadeiro, do primeiro álbum. Estava numa fase menos boa da minha vida, em que não conseguia simplesmente furar, não era capaz de convencer ninguém que tinha jeito para escrever e que podia fazer vida de músico com as minhas próprias letras. A Verdadeiro surgiu nessa época, em que tinha vontade de mostrar quem era e o que conseguia fazer. É das faixas mais sinceras que tenho. Depois tenho a Tu e Eu, a Breve, a Não me Perco, a Longe… Neste próximo trabalho também vou tentar voltar à essência do primeiro disco, a essa honestidade. Há muitos fãs que o pedem.

Como escolhes as tuas colaborações?

Uma colaboração é boa quando a música ganha com a riqueza e mistura de estilos. Sempre tentei fazer colaborações e não me manter preso a apenas uma, para tentar ganhar mais seguidores ou fama. Participei naquelas que considerei que faziam sentido na altura. E essas não aconteceram nem com pessoas demasiado conhecidas nem demasiado anónimas: eram apenas artistas que podiam acrescentar algo à música. Nunca me quis encostar a nenhuma bengala, nem fazer determinada colaboração para conseguir chegar a um público específico. No primeiro disco, colaborei com um amigo meu chamado Real Punch e com a Isaura, com quem há muito queria trabalhar. No segundo, com o Valas e com a April Ivy. Mais recentemente, cantei com AnaVitória e com o Agir. Todos estes casos só vieram acrescentar mais às músicas e todas as colaborações deviam ser assim.

Há alguma música que tenhas feito pela qual guardes um carinho especial?

A primeira. Chama-se Volta e fala de perder alguém próximo. Tem um tema triste.

Podes contar-nos que músicas têm estado na tua playlist?

Tenho regressado imenso há uns tempos atrás e ouvido coisas mais pesadas! Bring Me The Horizon, por exemplo. É uma banda que junta metal e eletrónica, gritos e melodias. Hoje em dia, com tanto a acontecer constantemente, a única coisa que me faz encontrar-me e manter os pés na terra é a música que oiço, é conseguir regressar ao passado através de bandas que ouvia antes. Falo também de Ornatos Violeta, The Weasel, Green Day, Twenty One Pilots… Acredito que reouvir o que ouvíamos no passado é importante, é algo que nos faz estar cá e ser nós.

Quanto ao projeto Coliseus, como surgiu esta ideia?

O Coliseus é uma mistura entre revista, dvd, ep… Quase como uma compilação de tudo o que tenho feito ao longo deste ano. Não quis lançar apenas o dvd, que já foi filmado há um ano no Coliseu de Lisboa. Queria fechar em grande este ciclo do disco do=s, mostrar o que foi a minha vida ao longo de 2017 e 2018. Assim, em vez de ser apenas uma caixa com um dvd lá dentro, fizemos uma revista com 100 páginas e fotografias exclusivas em tour, em casa e no estúdio. Vem também o EP físico do Abrigo – onde estão três músicas, o Abrigo, o Era Uma Vez e o Paraíso. Estão também duas músicas que cantei no Acústico da MTV. Embora isto ainda não seja bem o encerrar do ciclo, porque vem aí uma tour acústica chamada Abrigo, é um resumo dos últimos dois anos, uma espécie de álbum de memórias – para mim, mas também para todos os fãs. 

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